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Entrevista com Joe Nunes - um exemplo de persistência! por Gabriel Rocha 1-
Gosto de começar as entrevistas pedindo ao entrevistado que faça
uma breve apresentação. Fale um pouco quem é joe
Nunes e quando começou seu envolvimento com quadrinhos?
Bem, essa pergunta é mesmo complexa. Lembro de gostar de HQ's
antes mesmo de aprender a ler (comprava gibis do Hulk e Homem-Aranha e
obrigava minha mãe a ler para mim). É claro que minha mãe
também era a única pessoa que gostava de meus desenhos quando
comecei.
Gostava de copiar os heróis da Marvel e DC (creio que nenhum desenhista
de quadrinhos fugiu disso) e aos poucos comecei colocar eles dentro de
quadrinhos e fazer historinhas com meus próprios personagens.
A primeira pessoa a me mostrar que eu não era o único maluco
no mundo a desenhar quadrinhos foi o grande amigo Emir Ribeiro, foi através
do Emir e seus zines “Gigante” e “Velta” que me senti encorajado e inspirado.
Até hoje considero o Emir meu mestre. Depois de entrar para esse
fascinante mundo dos fanzines e quadrinhos não parei mais. Foram
muitos títulos editados, personagens criados, participações
em muitos fanzines e exposições, inclusive internacionais.
Já publiquei tiras em jornal, fiz capas e ilustrações
de livros e mais um monte de coisas, tudo graças a meus trabalhos
com HQ's. Em 2003, por motivos de saúde acabei abandonando essa
arte e hoje, aos poucos, estou retornando.
2- Gostaria de saber como foi sua transição de leitor
para criador. Diga como foi o surgimento da força criativa em você.
Acho que já dei umas “pinceladas” a esse respeito na pergunta
anterior. Mas como comentei, creio que ninguém da nossa geração
fugiu ao estereótipo do “fan-boy”, aquele cara que, de tanto ler
quadrinhos acaba se envolvendo de uma forma que quando dá por si,
já está dentro da coisa e tem nanquim correndo nas veias.
Não sei ao certo quando foi, mas sei que o Emir e o Batman têm
uma grande parcela de culpa nisso.
3- sua primeira experiência com a produção de fanzines
Foi uma experiência positiva? C onte - nos sobre essa experiência
inicial com a produção de fanzines.
Cara, essa pergunta é ótima e me fez lembrar do meu primeiro
zine. já publiquei muitos e se for listá-los, esquecerei
algum. Mas o “Centhurion” é inesquecível. Bem, estava eu
nem sabia direito o que era um fanzine, nunca tinha ouvido falar da máxima
do movimento punk “do it yourself”, mas foi exatamente isso que fiz. Como
sempre faço questão de salientar, faço parte da “geração
xerox” e foi usando a facilidade dessa impressão just in time
que me aventurei a lançar o “Centhurion”. Lembro que convidei
meu primo para fazer o zine, não tínhamos nem máquina
de escrever, fizemos o primeiro número dedicado a Wolverine (era
um informativo) e lá no meio “enfiei” uma HQ de uma página
minha (não lembro qual). Mas a partir dali vi a chance de tirar
meus personagens da gaveta e mostrar para os outros, mesmo que a tiragem
fosse de uns vinte exemplares.
O “Centhurion” durou doze números (ainda não bati esse
recorde) e me abriu as portas do underground. Faz 19 anos que publiquei
esse zine, o considero meu início, por isso é importante.
E é claro foi com ele que conheci muita gente interessante.
4- Quais gêneros de HQ que já produziu (aventura, ficção,
erótico, super-heróis, etc)? E dentre eles existe algum
que seja seu preferido para trabalhar?
Nunca produzi nada erótico, o resto já fiz, até
mesmo de humor. O que mais produzi até hoje foram HQ's de super-heróis.
mas sou particularmente atraído pelo terror. Sei que me saio bem,
pois minha arte tem um certo impacto visual que fica muito bem em temas
sombrios. Aprendi, devido muitas vezes ao número reduzidos de páginas
que temos de usar aqui no Brasil, a construir roteiros bem dinâmicos
e com desfechos impactantes. Essa escola de “produzir algo bom em pouco
espaço” me levou ao tema do terror. Algo que ainda estou aprimorando.
É claro que os super-heróis são paixão de
infância e como eu não cresci ainda, adoro desenhá-los.
5- Fora os fanzines editados por você, onde mais saíram
seus quadrinhos?
Vou ter de puxar pela memória, mas vamos lá: publiquei
essa HQ do lagarto negro no “Heróis Brazucas”, aí vem outros
fanzines, como “Corcel Negro”, “Voyeur”, “Tudo é”, “Zona Franca”,
“Profecia”, “Válvula de Escape”, “Ataroth”, “D-mentes”, “Black
Images”, “Alternativo”, “Tchê”, “Juvenatrix” e outros que não
lembro o nome agora.
6- Como você avalia seu trabalho como editor de fanzines? Acredita
que os objetivos iniciais foram atingidos?
Como editor meu objetivo foi sempre o de divulgar a minha arte e a de
outros colegas do underground, tenho orgulho de ter lançado alguns
nomes como o Roberto Gobatto Filho e Márcio Rogério silva
nos meus zines. Quem publica zines sabe que o grande barato é a
diversão que isso traz. O intercâmbio de idéias e
descobrir que existem muitas pessoas que pensam como a gente. Voltei a
publicar zines, dessa vez virtuais, pois infelizmente nem tudo são
flores nesse ramo e a falta de tempo e grana para editar algo em meio
físico muitas vezes é frustrante. Admiro caras que como
você batalham pesado por seus fanzines.
7- Quais novidades podemos esperar para as próximas edições
IDEARTE QUADRINHOS?
Como as coisas para mim são sempre corridas, tenho um problema:
muitos planos e pouco tempo. Mas pretendo publicar novos trabalhos meus
para breve. Existe um projeto chamado Proteus, que é feito em parceria
com o escritor Eduardo Amaro; é uma série de super-heróis
que estava engavetada e temos planos para lançar ainda esse ano.
Afora isso, estou voltando a colaborar com outros fanzines e revistas.
8- Como você interpreta a transição dos fanzines
em fotocópia para o meio digital?
Creio que é uma evolução natural das coisas. Como
comentei antes, o meio digital acaba se tornando mais barato para divulgação
do nosso trabalho e distribuição de nossos fanzines. Mas
acho que os e-zines vieram para somar aos zines impressos, são
dois momentos, uma nova versão da mesma arte e que devem conviver
em harmonia. O profissionalismo que os fanzines impressos atingiram ainda
me surpreende e me deixa feliz com os resultados. Encaro e-books e e-zines
como uma forma de chegar mais rápido e com menos custo aos leitores
e sei de muitos leitores que imprimem os fanzines digitais. No final das
contas o e-zine se torna uma opção a mais para o leitor
e facilita a vida de editores que distribuem, muitas vezes, seu material
gratuitamente.
9-
Fale de suas experiências com o e-zine CANIBAL HOLOCAUST nº
1.
Foram muito boas. Principalmente o fato da web multiplicar em muitas
vezes o nosso trabalho. É fascinante saber que meu trabalho foi
acabar nas mãos de pessoas que nunca conheci e que ele ainda continua
circulando pelos computadores de todo o mundo. De certa forma é
o que sempre quis fazer com meus fanzines impressos. Um fato que me deixa
chateado é o de que a maioria dos brasileiros ainda não
possui Internet e me sinto em falta com muitos leitores antigos que não
pude distribuir o Cannibal Holocaust. Infelizmente a net é uma
facilidade que nem todos tem acesso.
10- Além dos quadrinhos você exibe um grande talento
para as artes plásticas. Existe algum conflito entre essas habilidades,
ou elas se complementam de alguma forma? Comente um pouco sobre esta relação
entre artes plásticas e os quadrinhos.
Aprendi a desenhar muito antes de aprender a pintar e esse é um
fato que respeito muito. Tive um grande amigo e mestre que me apresentou
para o mundo da pintura, assim como o emir me apresentou aos quadrinhos
e fanzines. Lula Werner é um pintor surrealista que me mostrou
a arte por um outro prisma: “contar uma história inteira em uma
única imagem”. Obviamente que depois de começar a admirar
monstros sagrados da pintura como Salvador Dalí e Rembrandt, descobri
gênios dentro das próprias histórias em quadrinhos.
Atualmente as influências de Bill Sienkiewicz e Dave MC'Kean são
notas logo de início em minhas telas (quem conhece meu trabalho
e o deles, logo percebe). O interessante é que fui um dos primeiros
a levantar bandeiras contra esse tipo de expressão nos quadrinhos.
Hoje consigo vislumbrar o quanto evoluí como artista em virtude
das artes plásticas e da pintura. Sobre o conflito entre as duas
artes, só que é artista sabe do que estou falando agora;
os quadrinhos representam uma parte dinâmica e alegre do meu trabalho
e a pintura mostra um Joe Nunes mais sombrio e suas revoltas. Em resumo:
quando estou de bem com a vida eu desenho HQ's e quando estou deprimido
eu pinto (hehe).
11- As artes plásticas e os quadrinhos compartilham as mesmas
influências ou há alguma distinção?
As influências são totalmente distintas. Nos quadrinhos
os clássicos como John Byrne, George Pérez, Mozart Couto
e Emir Ribeiro são minhas influências, atualmente tenho gostado
muito do Mignola (acho legal aquele jeito todo particular que ele tem
de desenhar). Já nas artes são Salvador Dalí, Hieronimus
Bosh, Rembrandt, Dave MC'Kean, Bill Sienkiewicz. Apesar desses dois últimos
também direcionarem suas pinturas para as HQ's, não uso
sua influência nelas, mas tenho planos de fazer alguma HQ pintada
para breve.
12- Você já chegou a ingressar no mercado profissional
com seus trabalhos artísticos?
Sou ilustrador profissional, faço design para capas de cd's, livros
e já ilustrei vários livros infantis. Com quadrinhos, fiz
“tirinhas” para jornal. Como pintor, comercializo minhas obras mais “light”
(hehe). Não afasto a possibilidade de voltar a batalhar um lugar
no mercado profissional de quadrinhos, mas pretendo não me dedicar
tão arduamente a isso, sei que esse mercado é muito competitivo
e existem muitas “feras” trabalhando nele. Atualmente trabalho como instrutor
de oficinas de arte e também como professor. Pretendo iniciar exposições
para o final do ano, visando horizontes muito maiores (pelo menos essa
é minha vontade – hehe).
13- De onde vem sua inspiração para escrever? Você
usa alguma técnica especial para elaborar seus roteiros? Alguma
influência em especial?
Influências sempre existem, mesmo que nós nem saibamos disso.
Como disse, aprendi (devido ao tamanho reduzido das HQ's que temos de
produzir no Bra$il) a criar roteiros ágeis e compactos. Um cara
que sempre trabalhou assim foi o Júlio Emílo Braz e creio
que tenha sido com ele que aprendi a fazer roteiros assim. Claro que malucos
como Alan Moore, Frank Miller e Grant Morrinson sempre “passeiam” com
suas idéias pela minha cabeça (não tem como evitar
– hehe). Um roteirista de super-heróis que gosto muito é
o Keith Giffen.
14- E os desenhos? Quais as maiores influências?
Sem dúvidas são o John Byrne e o George Pérez (clássicos,
né?), afinal cresci vendo esses caras. Lembro que o que mais gostava
era abrir um gibi em qualquer página e acertar quem era o desenhista
(me achava o máximo, pois nunca errava), hoje tem muita gente que
desenha parecido e fica difícil fazer isso. Aqui no Brasil, também
sou fã dos clássicos: Emir Ribeiro, Mozart Couto e Eugênio
Colonese.
15- Você escreve roteiros para outras mídias além
dos quadrinhos? Tem vontade de escrever para alguma mídia em especial
(teatro, cinema, TV, literatura, etc.)?
Escrevo crônicas e textos para jornal (um trabalho mais voltado
para a área da sociologia, bem a parte dos quadrinhos) e também
tenho uma coluna sobre vídeo. Pretendo escrever um livro (quem
não pretende?), mas adoraria escrever um roteiro para cinema.
16- Para você, como deve ser a relação ideal de
trabalho entre o roteirista e o desenhista, durante a produção
de uma HQ? Você modifica seus próprios roteiros enquanto
desenha? Ou são processos bem mais separados?
Quando recebo o roteiro de outra pessoa, tento seguir o mais fielmente
possível, até mesmo por uma questão de respeito.
Quanto mais detalhes me passam, melhor. Preocupo-me muito em tentar entender
o que o roteirista realmente quer que saia no roteiro. Mas quando o roteiro
é meu, acabo mesmo reescrevendo à medida que vejo o resultado
no papel. Sou muito autocrítico e não consigo fugir disso
quando desenho meus próprios roteiros.
17- Como é trabalhar com personagens e criações
de terceiros? Existe alguma preferência sua em relação
ao trabalho com personagens e criações de terceiros? Comente
um pouco sobre seu trabalho nesse sentido.
Não é porque você está me entrevistando, mas
o Lagarto Negro é um personagem que gostei de desenhar, principalmente
porque sempre fui fã de personagens do estilo dele, como Batman
e Demolidor. Outro personagem que tenho bastante carinho é o Corcel
Negro, do Alcivan Gamelera. Gosto de personagens de outros, assim como
gosto de ver outros artistas desenhando meus personagens, creio que dá
uma riqueza muito grande ao personegem.
18- Conte como foi sua experiência como desenhista da HQ “SERVIR
E PROTEGER” com o Lagarto Negro? Comente um pouco sobre sua perspectiva
pessoal para o personagem.
Vejo no Lagarto Negro um expoente da HQB, além de ser um personagem
bem construído e com um visual que acho atraente, ele também
vem como um símbolo da sobrevivência dos heróis nacionais
e do profissionalismo que eles atingiram. SERVIR E PROTEGER foi
a última HQ que fiz antes de iniciar meus problemas mais graves
na visão, por muito tempo pensei que seria meu “canto do cisne”,
por isso ela tem um valor especial para mim. Além disso, olhando
ela agora, creio que o trabalho ficou legal e gostei muito de fazê-lo.
E vendo ela colorida por computador a sensação é
gratificante.
19- Essa HQ levou alguns anos para ser impressa. Gostaria de falar
um pouco sobre o processo de recuperação dessa HQ?
Pois é, depois de passar por inúmeros problemas de saúde,
que culminaram na perda de grande parte da minha visão e em um
transplante duplo (rim e pâncreas) em decorrência do diabetes.
Quando resolvi que queria tentar voltar a desenhar, uma das coisas que
eu tinha prontas era essa HQ e vi nela um bom começo (um ótimo
começo, na verdade). Digitalizei ela e “reformei” algumas coisas
no Corel Draw. Foi a HQ mais demorada da minha vida (HEHE). Na verdade
recuperei muito mais coisas com essa HQ, além dela própria.
20- Gostou de ver a HQ “SERVIR E PROTEGER” marcando a volta do Lagarto
Negro marcando a volta do Lagarto Negro para o fanzine HERÓIS BRAZUCAS?
Com certeza. É bom ver o Lagarto Negro (e eu também) de
volta ao fanzine. Me sinto feliz de ter participado.
22- Como avalia a receptividade dos leitores em relação
ao seu trabalho, tanto nos quadrinhos quanto nas artes plásticas?
Uma das coisas que me fez voltar a ativa foi o carinho que sempre recebi
dos meus leitores. Nas artes plásticas não é diferente,
sei que muitas pessoas admiram meu trabalho e o acompanham. Sei que minha
arte faz com as pessoas pensem e se deparem com muitas situações
inquietantes minha arte mexe com o âmago das pessoas. Isso para
um artista é extremamente gratificante.
23- A opinião dos leitores influência muito nas suas
decisões como autor? Como é lidar com a opinião dos
leitores?
Ela é fundamental, sendo que é para eles que faço
meu trabalho. Leitores de HQ's são extremamente críticos
e, em sua maioria conhecem bastante do assunto. Não deixo de fazer
as coisas do meu jeito, mas sempre procuro ouvir a opinião dos
leitores.
24-
Fale um pouco sobre seus trabalhos, onde encontrar, como entrar em contato
com você, use este espaço para divulgar suas realizações.
Bem, atualmente tenho um blog onde divulgo minhas telas. Estou com um
site em construção e logo que ele estiver no ar divulgarei
ele aqui. Quem quiser receber os e-zines da IDEARTE QUADRINHOS é
só me mandar um e-mail. Faço questão de responder
a todos que me escrevem o mais rápido possível.
O link do meu blog é esse: http://joenunes.zip.net
Meu e-mail é esse: joenunes_aga@yahoo.com.br
Meu estúdio também trabalha com ilustrações
e publicidade.
25- Muito obrigado pela entrevista, e por emprestar um pouco do seu
talento como artista para as HQs do Lagarto Negro! Quer deixar algum recado
especial para os leitores?
Bem, sou eu quem agradece a você, Gabriel, pela oportunidade de
eu falar um pouco sobre o meu trabalho. Queria dizer que é muito
bom estar, aos poucos, voltando a ativa. Os quadrinhos marcaram muito
a minha vida e trouxeram muitos amigos e experiências fantásticas.
É muito bom estar de volta.
Heróis Brazucas nº47, com
a HQ "Servir e Proteger", pode ser adquirido escrevendo para:
Rua Des. Hemetério Fernandes, n°231; Pau dos Ferros-RN; Cep:59900-000;
ou por E-Mail: FSCRANIO20@YAHOO.COM.BR
.
Saiba mais em:
Lagarto Negro este mês no Heróis Brazucas nº47 ou
em http://www.bigorna.net/index.php?secao=lancamentos&id=1174025145
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